O ensino dos instrumentos de cordas com o uso do folclore brasileiro

Artigo
por Glaucia Borges | Abr – Mai 2019

Meu interesse na pedagogia dos instrumentos de cordas, mais especificamente do violino, foi despertado há muitos anos quando fui bolsista do Curso de Musicalização Infantil da UFMG, e precisei dar aulas de violino para crianças sem ter nenhum preparo para tal. Com essa experiência assustadora e ao mesmo tempo desafiadora, fui desenvolvendo um interesse crescente pelo ensino deste instrumento.

Por sugestão do Professor Leopold La Fosse, meu orientador no curso de doutorado pela University of Iowa, minha tese abordou uma série de problemas relativos à performance e à pedagogia dos instrumentos de cordas no Brasil. Problemas sociais e econômicos, aspectos que interferem na difusão do ensino musical, na continuidade de projetos, na formação de professores, no aprendizado e na profissionalização do músico foram discutidos. Os processos de formação e qualificação do instrumentista também foram abordados, desde os cursos de instrução básica até os programas de pós-graduação. Para isso, entrevistei pessoalmente vários profissionais, incluindo instrumentistas, professores e maestros. Dentre os assuntos estudados, que afetam o desenvolvimento do ensino e performance dos instrumentos de cordas no Brasil, a instrução básica foi o aspecto mais crítico levantado pelos entrevistados.

Durante minha trajetória como estudante, professora e instrumentista de orquestra, pude vivenciar diversos aspectos mencionados na minha pesquisa, e essas descobertas serviram como ponto de partida para estudos posteriores. Decidi contribuir para a melhoria do cenário brasileiro com o desenvolvimento de uma literatura musical brasileira que motivasse o aluno a iniciar e prosseguir os estudos de violino. Para tal, busquei conciliar o repertório e os princípios do Método Suzuki com o uso de cantigas folclóricas brasileiras.

Cada instrumentista deve compreender sua função dentro da totalidade da obra para que o conjunto transmita as intenções do compositor de forma eficiente e expressiva.

Essa ideia amadureceu a partir de uma dificuldade que tive com alunos de violino iniciantes do Curso de Musicalização da Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. Apesar de usar a metodologia e o repertório Suzuki, não era fácil mantê-los motivados e interessados em escutar um repertório estrangeiro para internalizarem suas melodias e progredirem no aprendizado do violino. Então, por que não usar melodias conhecidas e transmitidas às crianças pela tradição oral ou em cursos de musicalização? Dessa forma, eu estaria seguindo e valorizando um dos princípios fundamentais da metodologia Suzuki: o processo de aprendizado da língua-mãe.

Partindo dessa experiência e do meu conhecimento como professora do Método Suzuki, busquei abordar os principais conceitos técnicos e musicais do repertório estrangeiro apresentados nos dois primeiros volumes de violino, utilizando cantigas brasileiras conhecidas pelas crianças. Mais de 60 canções foram selecionadas, adaptadas e editadas de acordo com as necessidades do repertório e da abordagem pedagógica de Suzuki. A busca por um nível de motivação mais elevado por parte dos alunos, a familiaridade das crianças com as cantigas e a qualidade do material desenvolvido, seguindo a eficiente metodologia Suzuki, sempre nortearam esse trabalho.

Primeiramente, esse repertório brasileiro foi desenvolvido e dedicado ao estudo básico do violino e, posteriormente, foi transposto e adaptado para a viola, o violoncelo e o contrabaixo. Para maximizar o seu uso, além das partes para o instrumento solo com acompanhamento de piano, foram desenvolvidas partituras de duos, com o mesmo instrumento, e quintetos de cordas (2 violinos, viola, violoncelo e contrabaixo). Além de absorver a técnica do seu instrumento, o aluno tem a oportunidade de tocar o repertório aprendido em tonalidades diferentes daquelas do repertório solo original, pois as peças para quinteto foram adaptadas e transpostas para outras tonalidades com o objetivo de propiciar o seu uso simultâneo pelos diversos instrumentos de cordas.

Como instrumentista de orquestra, sempre valorizei a prática da música de câmara na execução do repertório orquestral. Vários maestros descrevem a orquestra como um grande conjunto camerístico. São linhas melódicas, ritmos e timbres diversos, além de peculiaridades de cada instrumento que precisam ser observadas. Cada instrumentista deve compreender sua função dentro da totalidade da obra para que o conjunto transmita as intenções do compositor de forma eficiente e expressiva.

Minha proposta da prática de música de câmara, além de ser divertida, propicia o desenvolvimento dessas habilidades fundamentais desde o início do aprendizado básico; estimula e pressupõe que essa atividade prossiga durante a fase de formação até a profissionalização do instrumentista, com o seu ingresso em um dos seus principais campos de trabalho, a orquestra.

Depois de compreender a importância que os projetos sociais vêm desempenhando no ensino instrumental no Brasil, cheguei à conclusão de que seria benéfico adaptar as partituras dos duos para grupos maiores do mesmo instrumento, propiciando seu uso tanto em aulas individuais quanto no ensino coletivo heterogêneo. Espero que essa iniciativa, além de resgatar nossa cultura musical tradicional, possa contribuir para o enriquecimento do ensino básico dos instrumentos de cordas. 


Glaucia Borges é Doutora em Música e Master of Arts pela University of Iowa. Bacharel em violino pela UFMG e professora certificada no Método Suzuki pela Associação Suzuki das Américas.