João Carlos Victor

Ganhador da edição 2015 do Concurso Internacional de violão Francisco Tárrega, João Carlos Victor fala sobre a preparação e a importância do prêmio para a carreira

Roger Canesso
23/05/2020

Violao.art: O que o motivou a participar do concurso?

João Carlos Victor: Os motivos que me levaram a participar do Certamen Internacional de Guitarra Francisco Tárrega foram muitos: primeiro, por ser o concurso de violão mais prestigioso e antigo em atividade e ter completado  53 anos em 2018; segundo, porque, entre os vencedores, estão alguns dos maiores nomes no cenário internacional, como David Russell, Raphaella Smits, Zoran Dukic, Denis Azabagic, Fábio Zanon, Ricardo Gallén, José Antonio Escobar, Ana Vidovic, entre muitos outros; terceiro, pois, além dos concertos, o concurso ainda oferece a gravação de um CD pelo conceituado selo Naxos, que o distribui em todo o mundo. Portanto, o trabalho do vencedor acaba por ter uma repercussão mundial.

Sendo assim, é uma honra fazer parte desse seleto grupo.

Violao.art: A decisão de disputá-lo alterou sua rotina de estudos?

João Carlos Victor: A única alteração que fiz foi focar somente no concurso e deixar todo o resto de lado nos dois meses anteriores ao evento. Obviamente, eu já estava estudando o repertório antes, mas, nos últimos meses, eu foquei apenas no concurso, deixando de lado qualquer tipo de atividade que fosse me tirar a atenção durante a preparação.

Violao.art: Como se preparou técnica, musical e psicologicamente?

João Carlos Victor: Como o nível do concurso é muito alto e tem duração de uma semana e meia, eu já sabia que tinha de estar seguro técnica, musical, física e psicologicamente.

A minha preparação foi feita de maneira gradual. Primeiro, passei por peças que eu achava mais complexas e respeitei o meu tempo de aprendizagem. Eu acho isso crucial e pouco abordado: cada pessoa tem seu tempo de aprendizagem e tentar ir contra isso resulta em frustração, insegurança e cultivo de maus hábitos. Assim, eu ia aprendendo o repertório sempre devagar e, quando percebia que algo estava fora de controle, recomeçava os passos anteriores até que as soluções técnicas e musicais estivessem consolidadas.

Não basta somente escolher bem um programa, também é necessário fazer um mergulho profundo nas músicas.

Violao.art: Quais critérios você adotou na escolha do repertório e quais fatores você considera que foram decisivos para a conquista?

João Carlos Victor: Para mim, é importante ter uma proposta artística e coerente tanto na escolha quanto na abordagem do repertório.

Não basta somente escolher bem um programa, também é necessário fazer um mergulho profundo nas músicas.

Na primeira fase do concurso, por exemplo, tínhamos de tocar obrigatoriamente algumas peças do Gaspar Sanz (compositor do barroco espanhol) e ele escreveu três métodos para guitarra barroca, nos quais estão justamente essas músicas. Portanto, foi fundamental ler os três métodos para entender a estética, ornamentação e colher o máximo de informações possíveis sobre as peças.

Acho que tudo isso ajudou a me diferenciar do que ocorre muitas vezes em concursos: os candidatos apresentam um repertório com uma sucessão de músicas tecnicamente difíceis, mas sem nenhum tipo de nexo ou coerência entre elas. Um programa sem começo, meio e fim.

Violao.art: Qual a importância da conquista para a carreira?

João Carlos Victor: Receber o primeiro prêmio no Certamen Francisco Tárrega, juntamente com o prêmio de melhor interpretação do compositor Joaquín Rodrigo diretamente das mãos da filha do compositor e diretora da Fundação Joaquín Rodrigo, mudou a minha carreira.

Apesar de a internet dar a possibilidade de divulgar o trabalho mundialmente, o Certamen Francisco Tárrega tem toda uma história e prestígio que fazem com que o vencedor esteja sob os holofotes e o CD chegue aos quatro cantos do mundo. Com isso, recebo convites para tocar em importantes séries de concertos, ministrar máster classes em alguns dos maiores festivais de violão e ter matérias nas revistas especializadas no mundo todo.

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